Prof. José Fernandes Filho

  • Doutor em Ed. Física- Moscou / Rússia

  • Prof. Titular do Mestrado em Ciência da Motricidade Humana - Univ. Castelo Branco/RJ

  • Membro do "American College of Sports Medicine"

  • Pós graduado em Fisiologia do Esforço - UNIMEP - Piracicaba / SP

  • Especialização em Avaliação Morfo-Funcional realizado no Instituto Estatal de Cultura Física da ordem de Lenin - cidade de Moscou / Russia - 1992

  • Pós-Graduando do programa de Lato-Sensu em Fisiologia do Exercício da UCB/RJ- formado pela UFRRJ.

CRITÉRIOS DE AUTENTICIDADE CIENTÍFICA

Certamente a aplicação do conhecimento científico para determinar o tipo e quantidade de atividade física necessária vai de encontro as necessidades individuais de cada indivíduo, com isso a ciência do esporte tem mostrado um importante avanço nestes últimos anos. Em uma era na qual se torna importante a obtenção de resultados positivos em qualquer que seja o ramo das atividades humanas, fica cada dia mais difícil obter bons resultados decorridos simplesmente do acaso. Os treinadores aplicam, cada vez mais, treinamentos com bases científicas sólidas afim de poder programar o desenvolvimento da equipe, tudo isso com um único objetivo, aumentar a performance da equipe para garantir bons resultados. É neste ponto que o processo de medidas e avaliação surge como um elemento de suma importância no treinamento desportivo, este processo que se atribui escores também assume um papel muito importe dentro do quadro educacional.

Os principais objetivos do processo de medidas e avaliação são:

  • Classificar os indivíduos

  • Motivar

  • Manter padrões

  • Determinar o processo em que o indivíduo se encontra

  • Reajustar o treinamento

Ocorrem muitos enganos na interpretação como, pensar que a avaliação é o ato final do julgamento, quando na verdade é o processo para se chegar até ele. Durante o processo avaliativo é muito importante que o professor de Educação Física utilize-se de instrumentos ou testes que o permitirão atingir seus objetivos com segurança e consistência. Para tanto é preciso respeitar os critérios de autenticidade científica, os quais relataremos neste capítulo. Entretanto, o complexo processo avaliativo é composto de conceitos distintos, como teste, medida e avaliação.

O teste é um instrumento de medida que é utilizado para obter informações sobre um dado específico ou características sobre um grupo ou indivíduo. Então podemos entender com teste - Instrumento científico, de valor como diagnóstica, que implica uniformidade nas condições de aplicação e correção e que nem sempre acompanhado de normas para sua interpretação.

Logicamente, o teste seria então um reativo que, aplicado a uma pessoa, nos desse um testemunho de sua maneira de ser, de sua instrução, ou como se porta em determinada situação, ou seja, técnica usada para se obter uma informação.

A medida é um escore ou número que foi obtido baseado no teste. Nenhuma decisão deve ser tomada levando-se em conta a qualidade do número por si só, isto implica que as medidas devem ser anotadas somente como um valor numérico.

Técnica utilizada para coletar informações obtidas no teste, atribuindo um valor numérico aos resultados, geralmente expresso em centímetros ou metros, segundos ou minutos.

A avaliação é um termo complexo, que usualmente é mal utilizado por professores e alunos. É um julgamento feito a respeito de um estudo baseado na medida ou em algum critério pré-determinado.

Determina o valor da informação coletada. Classifica e indica o progresso dos avaliados, deve ser coerente com os objetivos do profissional.

O professor de Educação Física, de posse destas definições, deve escolher com propriedade o teste, a fim de obter medidas precisas para, então, fazer profundas avaliações sobre dados específicos ou características de seus alunos. Para tanto, no processo de seleção ou construção dos testes, o professor deve obedecer aos critérios de autenticidade científica, evitando a utilização de instrumentos (testes) inadequados.

Depois de determinar o porquê e o que medir ou testar devemos selecionar o melhor teste. Os testes selecionados deverão ter parâmetros aceitáveis para efetuar a tomada de decisão. Deve-se verificar sempre a validade, fidedignidade e objetividade dos testes propostos.

Segundo Rabelo (1999), durante o processo avaliativo é muito importante que o professor de educação física utilize-se de instrumentos ou testes que lhe o permitirão atingir seus objetivos com segurança e consistência.

A validade indica se o teste mede aquilo que deve ou pretende medir, ou seja, é a segurança da interpretação dos resultados do teste.

Segundo Cronbach (1949), "um teste é válido na medida em que sabemos o que mede".

Por existirem em educação física numerosos instrumentos de teste para se fazer uma escolha, é necessário estudar cuidadosamente os objetivos de cada um deles ao fazer uma seleção. MATHEWS (1980), afirma que um teste não pode ser melhor do que a sua validade, independentemente de sua confiança e objetividade.

GULIKSEN (1950), recomenda que procuremos verificar a validade de conteúdo de um teste, mediante o emprego de recursos como: intercorrelações de diversos tipos de provas destinadas a medir a mesma área, comparação dos resultados obtidos antes e depois da aprendizagem efetuada.

Outro fato importante é compreender a importância da impressão causada por um teste ao indivíduo que para ser avaliado. Este fato é complicado, pois, não é propriamente um aspecto da validade como a conhecemos e sim a um problema de relações humanas. O sucesso alcançado num programa de avaliação depende da atitude de cooperação e de interesse de quem faz o teste.

Para garantir uma interpretação adequada, o professor deve conhecer o tipo de validade que o teste propõem.

Mais recentemente Thomas e Nelson (1996), citam quatro tipos de validade:

  • Validade Lógica - é subjetiva e não é expressada por valores numéricos. Entretanto, ela é considerada como um pressuposto para outros tipos de validade muito utilizada na área de educação física.

  • Validade por Conteúdo - assim como a validade lógica, não pode ser expressa por valores numéricos. É muito utilizada nas avaliações curriculares das unidades de ensino de 1º e 2º graus, ou seja, é uma relação de ensinar e testar.

  • Validade por Critério - é a comparação entre os escores do teste proposto com a medida ou padrão, pois, usa uma medida critério ou teste padrão conhecido e que já possua autenticidade científica comprovada, é expressa matematicamente, através de um coeficiente de correlação.

A validade por critério dividi-se em validade concomitante e por predição.

  • Validade Concomitante - é a relação dos escores de um teste proposto com um outro teste, chamado padrão, por ter comprovada a sua validade. utilizada quando se deseja substituir um teste longo ou complexo, por um outro curto e de fácil aplicação.

Segundo Rabelo (1999), o coeficiente de relação obtido pela comparação dos escores do teste proposto com o teste padrão para fornecer dados relativos à precisão da validade concomitante também será alta; como conseqüência, o teste padrão poderá ser substituído pelo teste proposto.

  • Validade por Predição - utilizada muito pelos professores de educação física quando se deseja prever resultados futuros de um indivíduo em uma característica ou habilidade específica. Comprova através de um coeficiente de correlação que irá estabelecer uma relação entre teste proposto e a medida critério, é influenciado pelo tamanho da amostra e o erro padrão estimado.

  • Validade por Construção - é entendida como grau no qual o teste mede uma característica, ou constructo que não pode ser diretamente medido.

  • Constructo - nome que se dá a características que não podem ser medidas como: personalidade, stress e etc.

A validade por construção é dada através de métodos diferenciados e cada um destes é mais apropriado a determinada situação.

 

Escolha do Critério de Validação
 


Diferenciação em vários grupos de idade
Este critério implica no aumento progressivo dos resultados de acordo com a idade cronológica limitado aos testes que visam medir uma aptidão que efetivamente apresenta modificações em idades sucessivas, pois este critério é apenas de cunho negativo.

Rendimento escolar
Um dos critérios de aceitação mais difundidos onde implica em medir o índice de aproveitamento do aluno (notas, resultados parciais, provas, professores e etc.)

A fidedignidade, indica até que ponto as diferenças individuais nos resultados dos testes podem ser atribuídas a erros ocasionais de medida, e até que ponto elas revelam diferenças intrínsecas nos atributos em consideração, ou seja, é a segurança de uma medida que pode ser interpretada através de um coeficiente de correlação que será obtido pela concordância dos resultados dos testes. Incluímos o problema da precisão dos avaliadores: até que ponto coincidem as interpretações e avaliações de dois juizes distintos?

 

Técnicas para a Medida da Fidedignidade
 


  • Técnica da Lógica - diferente das demais, pois não é matematicamente calculada. O professor supõe que o teste é confiável, baseado em critérios como: instruções detalhadas do teste, objetivo do teste.

  • Técnica do Re-teste - consiste em aplicar a prova uma segunda vez aos mesmos indivíduos, isto é, repetir a mesma prova em uma segunda ocasião. Neste caso, o coeficiente de precisão é simplesmente a correlação entre os resultados obtidos pelos mesmos indivíduos em duas aplicações distintas da mesma prova.

  • Técnica das Formas Equivalentes - aplicar aos mesmos indivíduos duas formas equivalentes (paralelas) da mesma prova. O coeficiente de correlação assim obtido será uma medida da estabilidade temporal associada à medida da equivalência dos itens.

  • Técnica das Duas Metades - divide o teste em duas metades equivalentes, esta técnica consiste em calcular o grau de correlação entre escores obtidos por um grupo de pessoas em duas metades comparáveis da mesma prova. Nesta técnica, leva-se em consideração mais a equivalência dos itens do que propriamente a estabilidade temporal.

Uma vez dividido o teste, basta correlacionar os resultados obtidos em ambas as partes para obter uma estimativa da fidedignidade da prova.

Índice de Precisão - obtido extraindo a raiz quadrada do coeficiente de precisão. Definimos como correlação de um teste consigo mesmo. O índice de precisão será sempre superior ao coeficiente de precisão.

Erro Padrão da Medida - conhecido também como erro típico. Nos permite averiguar a fidedignidade do teste. O erro padrão nos informa o escore que se obteria se a medida fosse totalmente isenta de erro.

A objetividade, é o grau de concordância com o qual vários indivíduos marcam os mesmos escores no teste, ou seja, é a ausência da influência do avaliador nos resultados do teste, que é expressa através de um coeficiente de correlação.

Coeficiente de Correlação - Conhecido como grau de concordância entre duas variáveis.

Udinsky; Osterlind e Lynch (1981), afirmam que a correlação entre variáveis pode denotar a existência de uma associação ou pode dar uma indicação do grau com o qual as duas variáveis estão envolvidas. Quanto mais altos forem os coeficientes de correlação para validade, fidedignidade e objetividade, sua avaliação terá maior confiabilidade.

 

Tipos de Erros
 


Os dois tipos mais comuns são: erro de medida e erro sistemático.

Erro de Medida - este por sua vez subdivide-se me três outros erros:

  • Erro de equipamento - quando o equipamento não é aferido previamente.

  • Erro do avaliador - quando o avaliador erra na leitura do instrumento, quando sua técnica é incorreta ou não protocolada para o teste.

  • Erro administrativo - quando sai alguma coisa errada na parte administrativa do teste; por exemplo, quando o teste deveria ser aplicado pela manhã e só foi aplicado pela noite do mesmo dia.

Erro Sistemático - podemos citar as diferenças biológicas; por exemplo, a medida de estatura de um indivíduo será diferenciada se ele realizar uma medida pela manhã e retornar a medir a noite.

 

Conclusão
 


O professor de Educação Física deve sempre escolher testes que sejam válidos e, preferivelmente, com alto coeficiente de correlação, porque este irá determinar o quão bem o teste mede o que se propõe a medir.

É necessário que os profissionais da área de Educação Física, tenham total atenção quanto aos critérios de autenticidade científica. A escolha de testes válidos, resultará em medidas seguras, respeitando os objetivos traçados. Levando o professor a realizar julgamentos precisos sobre o seu programa, sem colocar em risco todo o processo avaliativo.

Outro aspecto de interesse diz respeito a realização de projetos ou de pesquisas onde seja necessária a utilização de testes. Estes deverão ter, impreterivelmente, validade conhecida e ser possuidores de um bom coeficiente de correlação.

Como professores de Educação Física, constantemente nos deparamos com situações onde julgamentos deverão ser efetuados. Por isso, é nosso objetivo selecionar e/ou construir o melhor teste para uma situação particular. E é a partir da aplicação dos conceitos introduzidos neste capítulo, que poderemos nos destacar, construindo, elaborando e julgando programas com embasamento científico, ao invés de continuarmos lidando com informações puramente casuais.

 

Fontes
 


FERNANDES, J. F. A Prática da Avaliação Física. Rio de Janeiro: Shape, 1999.

SAFRIT, M. J. e WOOD, T. M. Introduction to Measurement in Physical Education and Exercise Science. St. Louis: Mosby, 1995. 3. ed.

THOMAS, J. R. e NELSON, J. K. Research Methods in Physical Activity. Champaign: Human Kinetics, 1996. 3. ed.

MATHEWS, D. K. Medidas e Avaliação em Educação Física. Rio de Janeiro: Interamericana, 1980. 5. ed.

MORROW, J. R. et alii. Measurement and Evaluation in Human Performance. Champaign: Human Kinetics, 1995.

UDINSKY, B. F., OSTERLIND, S. J. e LYNCH, S. W. Evaluation resource Handbook: gathering, analysing, reporting data. 1981. p. 197 - 204.

BARROW, H. M. e MCGEE, R. A. A practical approach to measurement in physical education. 1971. p. 37 - 52.

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