Profa. Lais Lima

  • Profa de Educação Física (USP)

  • Mestranda em Biodinâmica do Movimento Humano (EEFEUSP)

  • Profa. de Atividades Rítmicas da Faculdade Ítalo Brasileira (SP), bailarina, coreógrafa, pesquisadora e consultora técnica de condicionamento físico, flexibilidade e avaliação física de atletas e bailarinos.

ATIVIDADES RITMICAS - FOLCLORE

ATIVIDADES RÍTMICAS: Esta disciplina, ministrada em algumas faculdades de Educação Física e de Dança, é muito carente de informações mais atualizadas. Desta forma na medida que forem surgindo questionamentos e procura por este material estaremos publicando alguns artigos que possam elucidar alguns professores que necessitem deste conhecimento. Desta vez, estaremos dando algumas noções sobre o Folclore.

FOLCLORE: Ciência que estuda determinado tipo de fato social, aquele que se caracteriza por ser anônimo e não institucionalizado e, eventualmente, por ser antigo. Representa o pensamento popular.

INTRODUÇÃO AO FOLCLORE BRASILEIRO: Em todas as manifestações do folclore brasileiro os elementos de origem européia estão presentes, pois os portugueses constituíram a camada dominante da população colonial. Entretanto, em muitos casos, houve influência marcante das populações indígena e negra, conforme a região e a importância que tiveram no processo de colonização, e da Igreja Católica, onde, nas comemorações religiosas, aglutinaram-se elementos folclóricos de origens diversas.
O folclore brasileiro apresenta grande diversidade regional. Desenvolveu-se principalmente em São Paulo, antes da industrialização, em Minas, durante a mineração, e especialmente no Nordeste, marcado por séculos de cultura da cana. Essas regiões possuíam uma população razoavelmente densa que criou um modo de vida tradicional e relativamente estável, capaz de incentivar a transmissão oral e a elaboração coletiva de representações. Possuíam também uma produção local e artesanal de artigos de consumo, de acordo com as técnicas e padrões estéticos próprios. Atualmente, entretanto, as manifestações folclóricas estão desaparecendo, a industrialização e a urbanização eliminaram o artesanato e a relativa auto-suficiência econômica dessas regiões. A cultura de massa substituiu os valores e as crenças locais e, em seu lugar, desenvolveu-se um folclore artificial voltado apenas para o consumo turístico.
Os estudos e as pesquisas sobre o folclore no Brasil, desenvolveram-se mais ativamente a partir de 1974, com a criação, pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, da Comissão Nacional do Folclore. Dirigida por Renato Almeida, esta comissão estabeleceu um maior intercâmbio entre os folcloristas brasileiros, organizados nas comissões estaduais. O I Congresso Brasileiro do Folclore, instalado no Itamaraty e realizado no Ministério da Educação e Cultura, aprovou a Carta do Folclore Brasileiro e levou à criação, em 1958, da Campanha da Defesa do Folclore Brasileiro, órgão do Ministério da Educação e Cultura. Entretanto, nosso folclore ainda não é perfeitamente conhecido. Apesar dos estudos realizados inicialmente por Sílvio Romero (1851-1914) e continuados por Amadeu Amaral (1910-1944), Mário de Andrade (1893-1945), Câmara Cascudo (1898- ) e Alceu Maynard de Araújo (1913-1974), poucos autores têm se dedicado a esse assunto. O folclore constituiu-se de uma série de tradições, lendas ou crendices populares manifestadas através de provérbios, contos, canções e tradições de uma região. Das velhas raízes saxônicas FOLK (povo) e LORE (sabedoria), surgiu em 1846 o vocábulo Folklore, significando sabedoria do povo. No Brasil, com a reforma ortográfica, falamos e escrevemos folclore. Ele é a cultura do povo, tendendo a transformar-se com o passar do tempo. Essa transformação ocorre paralela ao desenvolvimento das artes, das ciências e da tecnologia. Por esses motivo, o folclore não morre, ele é na sua essência uma cultura do povo que tem suas raízes neste próprio povo. Muitos folcloristas comentam que, com o desenvolvimento da tecnologia, a urbanização dos grandes centros industriais e outras iniciativas do progresso, o folclore sofre uma descaracterização, pois segundo a folclorista Maria de Lourdes Ribeiro, o folclore abrange todos os campos da vida humana, incluindo seus mitos e lendas, e suas histórias, seus teatros, suas artes, etc.; contudo, existem certas características que determinam o fato folclórico: o anonimato, ou melhor dizendo, o povo é seu autor, pois o nome do eventual autor perdeu-se no tempo e o ovo aceita o acontecimento sem nenhuma imposição, simplesmente porque neste fato existe algo que toca no fundo de sua alma. O fato folclórico não é documentado, registrado ou armazenado pelo povo que o fez e desenvolve. Ele passa de boca em boca, transmitindo sua sabedoria, seu modo de pensar, transformando-se, adaptando-se, de acordo com o interesse do povo. Uma de suas características principais é a tradicionalidade: no caso, ele age como uma garantia à permanência dos valores de uma cultura, pois a tradição nada mais é que a grande força das pessoas do povo. Além disso, há o fator funcionalidade: o fato folclórico existe por qualquer razão. Não é um torrão de barro jogado ‘parede que pregou por acaso com o passar das horas. Ele existe porque diz alguma coisa do povo e nada realiza sem uma determinante estreitamente ligada a um comportamento psicológico, religioso e social. Muitas vezes, um fato folclórico, como o bumba-meu-boi, serve de veículo para comunicar às autoridades e às pessoas em geral o que o povo ou um determinado grupamento humano acha de um certo governo, de alguma realização das autoridades ou mesmo dos indivíduos. Podemos constatar isso nos versos de Laurentino, criador e responsável pelo Bumba-meu-boi de Mestre Deus, bairro de São Luiz: “O governador Sarney foi o melhor que eu vi / construiu a caixa d’água e a Avenida Kendi (Avenida Kennedy)”. Se nestes versos os valores da obra estão presentes, em outras como esta: “Pra cantar / Sô nego besta / Pra cumer / quem ti convidô” - vemos o protesto lançado nos versos a um jornalista que considerava o boi de Laurentino e as demais aspirações do povo um fenômeno de atraso e, muitas vezes, de vergonha por se tratar de uma coisa do povo.

FOLCLORE BRASILEIRO: O folclore absorveu os vários fatores étnicos que formaram a raça brasileira. O índio e o negro contribuíram com a mitologia e um conjunto de tradições relativamente puras em seu caráter primitivo e selvagem. Em seu livro “Digressões em torno do Folclore”, Hugo Pedro Carradore diz que o encontro entre o branco e o índio, “um fértil acervo, foi ligado ao patrimônio brasileiro, que graças aos filhos desse conúbio, os caboclos vem se perpetuando”. Deste testamento de que somos herdeiros há bens de ordem material e não material. Entre tantos bens de ordem material pode-se citar o uso da mandioca e suas aplicações, a prensa de tipiti (cesta) usada no preparo da farinha de mandioca (é um engenho caboclo, acionada por um processo de parafuso sem fim); essa cesta ainda é encontrada nas últimas casas de farinha. Além disso temos ainda a herança do milho e sua utilização, o cultivo e o aproveitamento de grande número de plantas medicinais que os índios separavam da floresta brasileira.
Quanto à herança não material, a cultura cabocla nos propiciou uma riqueza sem fim em mitos, lendas, superstições, danças, cujas raízes estão presas à herança indígena. De uma maneira geral, os folcloristas defendem o moderno conceito de que a cultura popular é dinâmica, capaz de assimilar as influências exteriores, absorvê-las e transformá-las ao longo do tempo. Como lembra o professor da Universidade Federal da paraíba, Altimar Pimentel, a literatura de cordel assimilou a viagem à lua, a novela de televisão e o próprio Roberto Carlos”, ou “Carta de Satanás a Roberto Carlos”. Na opinião do professor e de vários especialistas da matéria, o papel do folclorista seria o de somente documentar o hoje, para não perder a memória amanhã. O folclorista não deve interferir na criação popular e muito menos querer que ela pare no tempo, numa atitude paternalista e estagnada. O povo precisa de liberdade para criar, de inteirar-se de sua época. Mesmo no moribundo teatro de fantoches ou de titeriteiros, que viajam no passado de fazenda em fazenda mostrando sua arte crítica, através de “João Redondo”, aparece de vez em quando um boneco cabeludo. E não importa, segundo Altimar, porque o “João Redondo” continua sendo um drama rural, que trata das relações fazendeiro-lavrador. É o povo que reage ao domínio semi-feudal do nordeste. O herói é Benedito ou Baltazar ou ainda Gregório. O povo vibra com suas derrotas e vitórias, terminando por esmagar (como um alter-ego do povo) o poder que o oprimia. É através das lendas e superstições que se conhece a alma do povo. Assim temos no Brasil, o Boitatá, que de acordo com a lenda é um gênio protetor dos campos contra os incêndios, também conhecido por cobra-de-fogo; Bumba-meu-boi - bailado popular do nordeste, cujos personagens principais são o boi, o médico, o cavalo-marinho, etc. A Iara - sereia dos lagos e mares, cuja sedução atrai as pessoas para o abismo; o Negrinho do Pastoreio - essa lenda é conhecida no sul do país. É a história de um negrinho escravo que foi muito castigado por haver tresmalhado um tordilho no rebanho que ele guardava, sendo por isso enterrado vivo em uma cova cheia de formigas onde Nossa senhora, sua madrinha, levou-o para o céu. Quando as crianças não conseguem encontrar alguma coisa perdida, acende-se velas na estrada para o Negrinho do Pastoreio. Saci Pererê - negrinho de uma perna só, com um cachimbo na boca, que vai ao encontro dos viajantes solitários armando-lhes ciladas pelo caminho.

Bibliografia:
MACHADO, I.C.; AZEVEDO, N. A.; FELIX, S.R. - Pradec - Programa Ativo de Desenvolvimento Cultural, Ed. Círculo do Livro, São Paulo, vol. III, pg 935-37, 19

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