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Há algumas semanas
uma reportagem num dos maiores veículos de comunicação mexeu com o
mundo da corrida ascendendo uma discussão, a meu ver sem necessidade
de tanto alarde. Diz a reportagem “Um estudo da Universidade de
Harvard, divulgado semana passada pela revista “Nature”, sugere que
correr descalço pode ser bom para os pés por causa da forma como
eles atingem o solo, bem diferente do modo como isso acontece quando
a pessoa está calçada”. O estudo descobriu o óbvio. Quem corre
descalço, na aterrizagem toca o chão com a parte central ou frente
do pé e não com o calcanhar como faz a maioria dos corredores
calçados. Não precisamos ser inteligentes para saber que correr
descalço e tocar o chão com o calcanhar dói e muito.
O gesto esportivo
da corrida envolve três fases distintas: apoio da perna que está no
chão lançando o corpo para cima e para frente, o vôo propriamente
dito e a aterrissagem. Ao tocar o solo, o movimento normal do pé é
fazer um discreto movimento lateral para fora (supinação) e em
seguida outro movimento para dentro (pronação) para estabilizar o
impacto e distribuir forças preparando-se para a fase seguinte de
impulso para o vôo.
Não resta a menor
dúvida também que a maioria de quem corre calcado ao longo dos anos
adquiriu o hábito de pisar primeiro com o calcanhar fazendo um
rolamento por muitos chamado de mata-borrão. Técnica por muito tempo
sugerida nas revistas antigas e até por treinadores de corrida. Não
significa necessariamente que isso seja errado e muito menos que o
fato por si só seja responsável por bom número de lesões como até
sugere o estudo. Isso tudo acaba levando a uma outra antiga
discussão. O que é melhor? Passada curta e rápida ou longa e lenta?
Quem usa a primeira acaba pisando exatamente no centro de gravidade.
Ou seja, bem embaixo do corpo dando continuidade à passada com mais
facilidade e consequentemente pisando com o meio do pé como faz quem
corre descalço. Aumentar a passada leva o indivíduo a pisar além do
centro de gravidade e com o calcanhar. Esse espaço, aparentemente
pequeno, é perdido mas ao longo de 10, 15 ou mais quilômetros pode
ser uma das causas do cansaço prematuro e também de lesões e/ou
dores musculares desnecessárias.
O
pé com seus 26 ossos, dois sesamóideos, 107 ligamentos, 38
articulações e 33 músculos tem uma estrutura bastante complexa para
sustentar todo peso corporal suportando, amortecendo e transferindo
o impacto durante os movimentos resultantes do gesto esportivo não
só da corrida como de diversos esportes. Por isso a formação dessa
estrutura é importante na infância. Aí sim, concordo plenamente com
a importância da criança assim que começa a andar ser incentivada a
andar descalça para fortalecer e formar todos os arcos do pé. O
maior mal que alguns pais podem fazer é colocar as crianças naqueles
famigerados andadores. O andador, além de não fazer a criança andar
antes do tempo ainda impede e/ou atrasa o desenvolvimento
psicomotor. Os pais superprotetores não deixam a criança andar
descalça com a justificativa de que vão se resfriar. Atitude
totalmente infundada. Melhor ainda para esse desenvolvimento é andar
descalça em terreno irregular e macio como a areia da praia.
Voltando para a
nossa corrida os quenianos que atualmente são os melhores fundistas
do mundo não correm descalços, mas a maioria pisa realmente com o
meio do pé e no centro de gravidade. No caso vem da infância pobre e
do hábito de andar e/ou correr descalço adquirindo desde cedo um
gesto esportivo adequado. Andar, correr, saltar e arremessar são
movimentos naturais do ser humano. Ninguém ensina.
Obviamente que
existem muitos desvios estruturais como o pé plano, cavo, pronado,
supinado, além das pessoas com excesso de peso que começam a correr
para recuperar a saúde e graças aos estudos biomecânicos a indústria
de calçados fabrica calcados esportivos caso a caso propiciando vida
esportiva muito mais longa para todos os atletas. Eu duvido que se
corrêssemos descalços teríamos a quantidade de maratonistas que
temos no mundo inteiro e a cada ano aumenta mais. E o que dizer dos
mais velhos que, calçados estão correndo mais e melhor? Portanto,
não se trata de correr descalço ou calçado ser melhor ou pior e sim
ser melhor orientado quanto ao gesto esportivo. Alguns corredores
ficaram famosos correndo descalços como o lendário etíope Abebe
Bikila e a brasileira Jorilda Sabino por razões diferentes. Abebe
para chamar a atenção do mundo sobre a pobreza de seu país, mas
povoado por cidadãos perseverantes e Jorilda por razões financeiras.
Tiveram que se render ao conforto e eficiência dos tênis para terem
vida esportiva mais longa. Precisamos ter muito cuidado com pesquisa
sensacionalista.
O hominídeo não
usava sapato sendo frequentemente citado como exímio corredor na
arte da caçada cansando e perseguindo animais. Dele talvez tenhamos
herdado a capacidade de correr longas distâncias, mas não se sabe
quantos morriam de fome com feridas nos pés sem poder correr atrás
da caça.
Para Refletir:
Converse sempre com as pessoas olhando olho no olho. Uma piscada de
olho pode significar muita coisa entre o céu e o inferno. Moraes
2010.
Sobre a Ética:
Profissionais que se vangloriam demais costumam ser como tambores.
Fazem muito barulho sem ter nada por dentro. Moraes 2010.
Cartas para:
lcmoraes@compuland.com.br
Luiz Carlos
de Moraes CREF1 RJ 003529
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