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Eis a questão. Porque espelho na
academia? Esse objeto de vidro surgiu à medida que esses
estabelecimentos começaram a ter mais opções de atividades físicas e
a estética ser mais valorizada que a saúde. Quem de nós ao passar
por um espelho não gosta de dar uma espiadinha com um olhar crítico?
Isso mesmo, embora ele seja verdadeiro refletindo a sua realidade,
muitas vezes vemos duas pessoas diferentes. A real refletida e a dos
sonhos construída pelos valores impostos pela sociedade.
Inicialmente o objetivo do espelho
seria através de um modelo (o professor) o aluno melhor desenvolver
a consciência corporal, posicionamento defendido por Novaes 1996. “O
aluno deve perceber, durante os exercícios, o posicionamento do
corpo em relação ao espaço e das partes ou segmentos do corpo entre
si, a fim de poder aprimorar o movimento e o domínio do corpo”.
Concordo, em parte, com esse posicionamento nas aulas coreografadas
como é o caso do step, danças entre outras, embora eu mesmo já tenha
ministrado aula de step sem espelho na PETROBRAS e acabei formando
um grupo de alunas (foto), na época todas com mais de 25 anos de
idade para fazer apresentação. Todas desenvolveram bem a coordenação
motora para fazer atividades coreografadas.
Outras atividades como a ginástica
localizada o espelho pode ser necessário ou não, embora o modelo a
ser copiado tenha que existir. No tempo da Calistênica ao ar livre,
quando comecei a ministrar aulas de ginástica, não existia o espelho
tendo que o professor ficar de frente para os alunos numa posição de
destaque e nem por isso os alunos deixavam de executar os movimentos
corretamente com a vantagem do professor estando de frente para os
alunos poder melhor corrigi-los. Como existe hoje uma corrente
querendo quebrar essa questão da estética ou pelo menos atender um
público que não gosta de espelho, algumas academias já adotam tipos
de aulas sem espelho e com razoável sucesso. Esse público começa a
ser um nicho de mercado com anseios muito além da simples imagem
refletida. Uma grande parcela da população não gosta do que vê. Essa
foi a conclusão de parte de uma pesquisa coordenada pela
psicanalista Maria Cristina Souza de Lúcia do hospital das clínicas
da Universidade de São Paulo. Estão insatisfeitos com a própria
imagem 57% dos homens e 80% das mulheres. A crueldade imposta pela
sociedade do modelo de corpo magro com músculos aparentes sem
gordurinhas aqui e ali pode constranger algumas pessoas que
gostariam de participar de programas de ginástica, mas as
comparações diante do espelho as afastam.
O narcisismo faz parte do ego das
pessoas e se caracteriza pelo amor que temos a nós mesmos devendo
ser incentivado na justa medida. Claro, não precisa também chegar ao
extremo como na lenda de Narciso que se apaixonou pela sua imagem
refletida na água do rio e morreu afogado vítima do que passou a ser
chamado de narcisismo e modernamente transtorno disfórmico corporal.
Trata-se de uma patologia psíquica das pessoas excessivamente
preocupadas com a aparência chamada de vigorexia semelhante à
anorexia nervosa que é mais conhecida. Nesse segundo caso, trata-se
das pessoas nunca satisfeitas com sua magreza e as vigoréxicas são
as nunca satisfeitas com seus músculos na busca obsessiva da
perfeição.
A Vigorexia, ou Síndrome de Adônis, é
um transtorno emocional assim denominado pelo psiquiatra americano
Harrison G. Pope da Faculdade de Medicina de Harvard, Massachusetts.
Segundo Pope cerca de um milhão de norte-americanos entre os nove
milhões adeptos à musculação podem estar acometidos pela patologia
emocional. As duas, anorexia e vigorexia, são doenças ligadas ao
narcisismo.
Cuidar do próprio corpo e seu
embelezamento com equilíbrio é espantar a ansiedade e a depressão,
doenças cujos índices aumentaram com a modernidade.
Existem atividades como a
hidroginástica que tradicionalmente não se usa espelho e por isso as
pessoas não ficam fazendo comparações. Todo mundo faz direito os
exercícios e o professor pode facilmente corrigi-los.
Nada tenho contra o espelho. O
narcisismo, como citado, sem exageros faz muito bem ao ego e, por
conseguinte à saúde mental. Ministrar aula de ginástica sem espelho
como no passado não tem dificuldade nenhuma e cá entre nós. Algumas
vezes são os próprios professores que se olham tanto e esquecem dos
alunos. O espelho não deixa de ser um instrumento pedagógico
eficiente e nunca mente. Do contrário já teria mentido na história
da branca de neve.
Para Refletir:
“Por que cometer erros antigos se há
tantos erros novos a escolher?” (Bertrand Russel)
Cartas para:
lcmoraes@compuland.com.br
Luiz Carlos de
Moraes CREF1 RJ 003529
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